—Acha tambem que a dança se foi com o imperio?

—Não, a prova é que estamos dançando. Não; digo que lhe não chame nomes feios.

—Parece-lhe então que Pedro é um rapaz de juizo?

—Certamente, como o senhor.

—Mas...

Paulo ia a perguntar-lhe qual d'elles, tendo ella de jurar por um ou por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Então ella falou do calor, e elle achou que sim, que estava quente. Acharia que estava frio, se ella se queixasse de frio. Flora, se só cedesse á vista, era tambem capaz de acceitar todas as opiniões de Paulo, para ir com elle. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante, olhava por cima, firme em que os seus escriptos de um anno é que haviam feito a Republica, posto que incompleta, sem certas ideias que expozera e defendera, e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo á moça, e ella escutava com prazer, sem opinião; era só o gosto de o escutar. Quando a lembrança de Pedro surgia na cabeça da moça, a tristeza empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra, e assim acabou o baile. Então as duas, tristeza e alegria, agazalharam-se no coração de Flora, como as suas gemeas que eram.

O baile acabou. O capitulo é que não acaba sem que deixe um pouco de espaço a quem quizer pensar naquella creatura. Pae nem mãe podiam entendel-a, os rapazes tambem não, e provavelmente Santos e Natividade menos que ninguem. Tu, mestra de amores ou alumna delles, tu que escutas a diversos, conclues que ella era... Custa pôr o nome do officio. Se não fosse a obrigação de contar a historia com as proprias palavras, preferia calal-o, mas tu sabes qual é elle, e aqui fica. Conclues que Flora era namoradeira, e conclues mal.

Leitora, é melhor negar já isto que esperar pelo tempo. Flora não conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda se podia dizer namoradeira de officio. A namoradeira de officio é a planta das esperanças, e alguma vez das realidades, se a vocação o impõe e a occasião o permitte. Tambem é preciso ter em lembrança aquillo de um publicista, filho de Minas e do outro seculo, que acabou senador, e escrevia contra os ministros adversarios: «Pitangueira não dá manga.» Não, Flora não dava para namorados.

A prova disto é que no Estado em que viveu alguns mezes de 1801, com o pae e a mãe, para o fim que direi adiante, ninguem alcançou o menor dos seus olhares amigos ou sequer complacentes. Mais de um rapaz consumiu o tempo em se fazer visto e attrahido della. Mais de uma gravata, mais de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe as côres, os gestos e os vidros, sem obter outra cousa que a attenção cortez e acaso uma palavra sem valor.

Flora só se lembrava dos gemeos. Se nenhum delles a esqueceu, ella não os perdeu de memoria, Ao contrario, escrevia por todos os correios a Natividade para se fazer lembrada de ambos. As cartas falavam pouco da terra ou da gente, e não diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra saudades, que cada um dos dous gemeos lia para si. Tambem elles a escreviam nas cartas que mandavam a D. Claudia e a Baptista, com a mesma intenção duplicada e e mysteriosa, que ella entendia muito bem.