—E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo.
—Posso concordar com a senhora, porque é uma delicia ir com as suas opiniões, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, não ha calculo. Com os mais, se concordo, é porque elles só dizem o que eu penso.
—Ja o tenho achado em contradicção.
—Póde ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá isto bem, porque é moça e ingenua, mas creia que a vantagem é toda sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessario.
—Não se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não creio nada contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradicção que lhe acho é agradavel.
—Tambem concordo.
—Concorda com tudo.
—Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro?
Esqueceu-me dizer que esta conversação era á porta de uma loja de fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direcção do largo de S. Francisco de Paula e viu a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu á porta com a filha. O chamado de D. Claudia interrompeu a conversação por alguns instantes. Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas de ambos os lados e no centro. Não havia borborinho grande, nem socego puro, um meio termo.
Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem; mas este tinha a alma tão mettida em si mesma que, se falou a uma ou duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça para dentro, onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moça escolhia a um dos gemeos, e qual destes. Vá tudo; tinha já pezar que não fosse algum, posto não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo da exclusão; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles, se della, é o que propriamente se não póde dizer com verdade. Quando muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma delle, ainda mais fundo que elle mesmo. Lá se descobriria acaso, entre as ruinas de meio celibato, uma flôr descorada e tardia de paternidade, ou, mais propriamente, de saudade della...