Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não falaram mais de contradicção, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma palavra ácerca de Pedro ou Paulo.


[CAPITULO LXXXVIII]

Não, não, não

Elles, onde quer que estivessem naquelle momento, podiam falar ou não. A verdade é que, se nenhum consentia em deixar a moça, tambem nenhum contava obtel-a, por mais que a achassem inclinada. Tinham já combinado que o rejeitado acceitaria a sorte, e deixaria o campo ao vencedor. Não chegando a victoria, não sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria o mais facil, se a paixão não crescesse, mas a paixão crescia.

Talvez não fosse exactamente paixão, se dermos a esta palavra o sentido de violencia; mas, se lhe reconhecermos uma forte inclinação de amor, um amor adolescente ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a mão da pequena, se houvessem de consultar só a razão, e mais de uma vez estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para logo desapparecia. A ausencia era já insoffrivel, a presença necessaria. Se não fôra o que aconteceu e se contará por essas paginas adiante, haveria materia para não acabar mais o livro; era só dizer que sim e que não, e o que estes pensaram e sentiram, e o que ella sentia e pensou, até que o editor dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a historia começada ficaria sem fim. Não, não, não... Força é continual-a e acabal-a. Comecemos por dizer o que os dous gemeos ajustaram entre si, poucos dias depois daquelle sonho ou delirio da moça Flora, á noite, no quarto.


[CAPITULO LXXXIX]

O dragão

Vejamos o que é que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a gente lhe tem dado os mais fundos golpes que póde, elle esperneia, expira e renasce. Assim se fez naquella noite. Não sei que theatro foi, nem que peça, nem que genero; fosse o que fosse, a questão era matar o tempo, e os trez o deixaram estirado no chão.