Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de reputação e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes désse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e não a politica ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria carreira, aliás obscura. Mas a ideia do mando tornava a óccupar a cabeça da mãe, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.
Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam ás segundas; o mesmo por occasião de dias santos e festas de gala. Natividade contava com o costume e as attracções.
Na barca e em Petropolis era objecto de conversação a differença entre os filhos, que só iam lá uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos negocios ás costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles cá em baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os lá em cima? Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia á Santa Casa e outro á Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, ás noites. A explicação era acceitavel, mas, além de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do verão, podia ser invenção dos rapazes; naturalmente, iriam ás moças.
A verdade é que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas horas que lá passavam. Além do mais, tinham a semelhança e a graça. As mães diziam bonitas cousas á mãe delles, e indagavam da razão verdadeira que os prendia á capital, não assim como eu digo, nu e cru, mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a mãe insistia na Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, já servida em primeira mão, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita.
[CAPITULO XCII]
Segredo acordado
Emfim, que segredo ha que se não descubra? Sagacidade, boa vontade, curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma força que deita cá para fóra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos cançam de calar,—calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo, que serve melhor á imagem. Cançam, e ajudam a seu modo aquillo que imputamos á indiscrição alheia.
Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um raio de sol basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos são pagãos) um quasi nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia, emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo é respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem são gente; nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol penetra na solidão delles, é que difficilmente sae mais, e geralmente cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fóra. Vexados da grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados, alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que tão vagamente e sem nomes, que mal se adivinhará quaes sejam. É o periodo da infancia, que passa depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega, e elles não se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do proprio sol, que quando nasce é para todos, segundo dizia uma taboleta da minha infancia.
Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas este capitulo, mas o assumpto não teria nobreza nem interesse, e ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo divulgado; é quanto basta. Uma veranista elegante não dissimulou o seu espanto ao saber que os dous irmãos combinavam n'um ponto que faria romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legação insinuou que podia ser brincadeira dos dous.