Flora, no quarto, não cuidava então de bilhetes nem camarotes; tambem não acudia á dôr de cabeça, que não tinha. Se falou nella foi por ser uma razão proxima e acceitavel, breve ou longa, conforme a necessidade da occasião. Não supponhas que está rezando, embora tenha alli um oratorio e um crucifixo. Não viria pedir a Jesus que lhe livrasse a alma daquella inclinação desencontrada. Posta á beira da cama, os olhos no chão, pensava naturalmente em alguma cousa grave, se não era nada, que tambem agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu os beiços sem raiva; metteu a cabeça entre as mãos, como se quizesse concertar os cabellos, mas os cabellos estavam e ficavam como dantes.

Quando se levantou era totalmente noite, e accendeu uma vela. Não queria gaz. Queria uma claridade branda que désse pouca vida ao quarto e aos seus moveis, que deixasse algumas partes na meia escuridade. O espelho, se fosse a elle, não lhe repetiria a belleza de todos os dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distancia. Mostrar-lhe-hia a nota de pallidez e de melancolia, é verdade, mas a nossa amiguinha não se sabia pallida, nem se sentia melancolica. Tinha na tristeza desvairada daquella occasião uma pontinha de abatimento.

Como tudo isso se combinava, não sei, nem ella mesma. Ao contrario, Flora parecia, ás vezes, tomada de um espanto, outras de uma inquietação vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira de balanço, era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Dahi a pouco, entrariam provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrança de ir dizer á mãe que a não mandasse chamar; estava de cama. Esta ideia não durou o que me custa escrevel-a, e aliás já lá vae na outra linha. Recuou a tempo.

—É um desproposito, disse comsigo; basta não apparecer. Mamãe dirá que estou adoentada, tanto que perdemos o theatro, e, se vier aqui, digo-lhe que não posso apparecer...

As ultimas palavras sairam-lhe de viva voz, para maior firmeza da resolução. Projectou reclinar-se já na cama; depois achou melhor fazel-o quando ouvisse o passo da mãe no corredor. Todas essas alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, não é impossivel que fosse tambem um modo de sacudir quaesquer lembranças aborreciveis. A moça temia ir atraz dellas.


[CAPITULO XCV]

O terceiro

Temendo ir atraz dellas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das janellas do quarto, que dava para a rua, encostou-se á grade e enfiou os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem estrellas, pouca gente que passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com luzes, uma com piano. Não viu certa figura de homem na calçada opposta, parada, olhando para a casa de Baptista. Nem a viu, nem lhe importaria saber quem fosse. A figura é que tão depressa a viu como estremeceu e não despegou mais os olhos della, nem os pés do chão.

Lembras-te daquella veranista de Petropolis que attribuiu um terceiro namorado á nossa amiguinha? «Um dos trez», disse ella. Pois aqui está o terceiro namorado, e póde ser que ainda appareça outro. Este mundo é dos namorados. Tudo se póde dispensar nelle; dia virá em que se dispensem até os governos, a anarchia se organisará de si mesma, como nos primeiros dias do paraiso. Quanto á comida, virá de Boston ou de Nova-York um processo para que a gente se nutra com a simples respiração do ar. Os namorados é que serão perpetuos.