Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando Ayres vinha ao Rio de Janeiro, não deixava de ir vel-a a S. Clemente, onde a achava qual era d'antes, salvo um pouco de silencio em que a viu mettida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de Flora, pedindo-lhe desculpa da desattenção, se a houve, e mandando-lhe saudades. «Mamãe pede que a recommende tambem ao senhor e á familia da baroneza.» Esta recommendação exprimia o consentimento obtido da mãe para que lhe escrevesse a carta. Quando elle tornou ao Rio, correu a S. Clemente e Flora pagou-lhe com alegria grande o silencio daquella outra manhã. Todavia, não era espontanea nem constante; tinha seus cochilos de melancolia. Ayres voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora apparecia-lhe com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alteração dos ultimos dias.

Talvez a causa daquellas syncopes da conversação fosse a viagem que o espirito da moça fazia á casa da gente Santos. Uma das vezes, o espirito voltou para dizer estas palavras ao coração: «Quem és tu, que não atas nem desatas? Melhor é que os deixes de vez. Não será difficil a acção, porque a lembrança de um acabará por destruir a de outro, e ambas se irão perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas, além das particulas de cousas, tão leves e pequenas, que escapam ao olho humano. Anda, esquece-os; se os não pódes esquecer, faze por não os ver mais; o tempo e a distancia farão o resto.»

Tudo estava acabado. Era só escrever no coração as palavras do espirito, para que lhe servissem de lembrança. Flora escreveu-as, com a mão tremula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras não combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, não todas, mas salteadamente, até que o musculo as lançou de si. No valor e no impeto podia comparar o coração ao gemeo Paulo; o espirito, pela arte e subtileza, seria o gemeo Pedro. Foi o que ella achou no fim de algum tempo, e com isso explicou o inexplicavel.

Apesar de tudo, não acabava de entender a situação, e resolveu acabar com ella ou comsigo. Todo esse dia foi inquieto e complicado. Flora pensou em ir ao theatro para que os gemeos não a achassem á noite. Iria cedo, antes da hora da visita. A mãe mandou comprar o camarote, e o pae approvou a diversão, quando veiu jantar, mas a filha acabou com dôr de cabeça, e o camarote ficou perdido.

—Vou mandal-o aos jovens Santos, insinuou Baptista.

D. Claudia oppôz-see guardou o camarote. A razão era de mãe; posto lhe tardasse a escolha e o casamento, ella queria vel-os alli comsigo, falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos pendentes da filha. Baptista não entendeu logo nem depois; mas para não desagradar á esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma occasião tão boa! Não era muito para elles que possuiam com que despender, e despendiam; o obsequio estava na lembrança, e tambem na cartinha que lhes escreveria, mandando o camarote. Chegou a redigil-a de cabeça, apesar de já inutil. A mulher, ao vel-o calado e serio, cuidou que fosse zanga e quiz fazer as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mão. Redigia a cartinha, punha no texto um gracejo sizudo, dobrava o papel e lançava-lhe este sobrescripto gemeo: «Aos jovens apostolos Pedro e Paulo.» O trabalho intellectual tornou mais dura a opposiçâo de D. Claudia. Uma cartinha tão bonita!


[CAPITULO XCIV]

Gestos oppostos

Como póde um só tecto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é tambem este céu claro ou brusco,—outro tecto vastissimo que os cobre com o mesmo zelo da gallinha aos seus pintos... Nem esqueça o proprio craneo do homem, que os cobre igualmente, não só diversos, senão oppostos.