—Mal não faz, disse Natividade.
E foi abrir, não toda, mas metade da janella. Flora, posto que já mui caida, fez esforço e voltou-se para o lado da luz. Nessa posição ficou sem dar de si; os olhos, a principio vagos, entraram a parar, até que ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e abafando os passos, trazendo recados e levando-os; fóra, espreitavam o medico.
—Demora-se; já devia cá estar, dizia Baptista.
Pedro era medico, propoz-se a ir ver a enferma; Paulo, não podendo entrar tambem, ponderou que seria desagradavel ao medico assistente; além disso, faltava-lhe pratica. Um e outro queriam assistir ao passamento de Flora, se tinha de vir. A mãe, que os ouviu, saiu á sala, e, sabendo o que era, respondeu negativamente. Não podiam entrar; era melhor que fossem chamar o medico.
—Quem é? perguntou Flora, ao vel-a tornar ao quarto.
—São os meus filhos que queriam entrar ambos.
—Ambos quaes? perguntou Flora.
Esta palavra fez crêr que era o delirio que começava, se não é que acabava, porque, em verdade, Flora não proferiu mais nada. Natividade ia pelo delirio. Ayres, quando lhe repetiram o dialogo, rejeitou o delirio.
A morte não tardou. Veiu mais depressa do que se receiava agora. Todas e o pae acudiram a rodear o leito, onde os signaes da agonia se precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rapidas, não tanto que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta que de esculptura. As janellas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o céu.