[CAPITULO CVII]

Estado de sitio

Não ha novidade nos enterros. Aquelle teve a circumstancia de percorrer as ruas em estado de sitio. Bem pensado, a morte não é outra cousa mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpetua, ao passo que o decreto daquelle dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72 horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver. Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria commettido aquella moça, além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras, que se não ajustam, antes se contrariam. A razão é que não recordo este obito sem pena, e ainda trago o enterro á vista...


[CAPITULO CVIII]

Velhas ceremonias

Aqui vae a sair o caixão. Todos tiram o chapeu, logo que elle assoma á porta. Gente que passa, pára. Das janellas debruça-se a visinhança, em algumas atopeta-se, por serem as familias maiores que o espaço; ás portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que pegam nas alças do caixão, Baptista, Santos, Ayres, Pedro, Paulo, Nobrega.

Este, posto já não frequentasse a casa, mandara saber da enferma, e foi convidado a carregar o gracioso corpo. No carro, em que levava o secretario, e era puxado pela mais bella parelha do prestito, quasi unica, lembrava Nobrega ao secretario.

—Não lhe dizia eu que ella era doente? Era muito doente.

—Muito.