Não vou ao ponto de affirmar que teve prazer com a morte de Flora, só por havel-o feito acertar na noticia da doença, estando ella perfeitamente sã. Mas que ninguem fosse seu marido, foi uma especie de consolação. Houve mais; suppondo que ella o tivesse acceitado e casassem, pensava agora no esplendido enterro que lhe faria. Desenhava na imaginação o carro, o mais rico de todos, os cavallos e as suas plumas negras, o caixão, uma infinidade de cousas que, á força de compôr, cuidava feitas. Depois o tumulo; marmore, letras de ouro... O secretario para o arrancar á tristeza, falava dos objectos da rua.

—V. Ex. lembra-se do chafariz que havia aqui ha annos?

—Não, resmungava Nobrega.

Ainda uma vez, não ha novidade nos enterros. Dahi o provavel tedio dos coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. Não cantam, como os de Hamlet, que temperam as tristezas do officio com as trovas do mesmo officio. Trazem o caixão da cal e a colher para os convidados, e para si as pás com que deitam a terra para dentro da cova. O pae e alguns amigos ficaram ao pé da cova de Flora, a ver cair a terra, a principio com aquelle baque soturno, depois com aquelle vagar cançativo, por mais que os pobres homens se apressem. Enifim, caiu toda a terra, e elles puzeram em cima as grinaldas dos paes e dos amigos: «À nossa querida filha»;—«À nossa santa amiguinha Flora a saudosa amiga Natividade»;—À Flora, um amigo velho», etc. Tudo feito, vieram saindo; o pae, entre Ayres e Santos, que lhe davam o braço, cambaleava. Ao portão, foram tomando os carros e partindo. Não deram pela falta de Pedro e Paulo que ficaram ao pé da cova.


[CAPITULO CIX]

Ao pé da cova

Nenhum delles contou o tempo gasto naquelle logar. Sabem só que foi de silencio, de contemplação e de saudade. Não digo, para os não vexar agora, mas é possivel que chorassem tambem. Tinham um lenço na mão, enxugavam os olhos; depois com os braços caidos, as mãos prendendo o chapeo, olhavam apparentemente para as flôres que cobriam a sepultura, mas na realidade para a creatura que lá estava embaixo.

Emfim, cuidaram de arrancar-se dalli, e despedir-se da defunta, não se sabe com que palavras, nem se eram as mesmas; o sentido seria egual. Como estivessem defronte um do outro, acudiu-lhes a ideia de um aperto de mão por cima da cova. Era uma promessa, um juramento. Juntaram-se e vieram descendo, calados. Antes de chegar ao portão, reduziram á palavra o gesto das mãos feito sobre a cova. Que juravam a conciliação perpetua.

—Ella nos separou, disse Pedro; agora, que desappareceu, que nos una.