Não sabendo mais que razão déssem, um delles, creio que Pedro, resolveu accusar o irmão:

—Foi elle, mamãe!

—Eu? redarguiu Paulo. Foi elle, mamãe, elle é que não disse nada.

—Foi você!

—Foi você! não minta!

—Mentiroso é elle!

Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, não tanto que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhes os braços a tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar ou ameaçar, beijou-os com tamanha ternura que elles não acharam melhor occasião de lhe pedir doce. Tiveram doce; tiveram tambem um passeio, á tarde, no carrinho do pae.

Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram á mãe o passeio, a gente da rua, as outras creanças que olhavam para elles com inveja, uma que mettia o dedo na bôca, outro no nariz, e as moças que estavam ás janellas, algumas que os acharam bonitos. Neste ultimo ponto divergiam, porque cada um delles tomava para si só as admirações; mas a mãe interveiu:

—Foi para ambos. Vocês são tão parecidos, que não podia ser senão para ambos. E sabem porque é que as moças elogiaram vocês? Foi por ver que iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos não brigam, ainda menos sendo irmãos. Quero vel-os quietos e amigos, brincando juntos sem rusga nem nada. Estão entendendo?

Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a mãe repetisse a pergunta, e deu egual resposta. Emfim, porque esta mandasse, abraçaram-se, mas foi um abraçar sem gosto, sem força, quasi sem braços; encostaram-se um ao outro, estenderam as mãos ás costas do irmão, e deixaram-n'as cair.