De noite, na alcova, cada um delles concluiu para si que devia os obsequios daquella tarde, o doce, os beijos e o carro, á briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir á cara um do outro, na primeira occasião. Isto que devia ser um laço armado á ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do socco recebido naquelle dia, mas tambem satisfação de um desejo intimo, profundo, necessario. Sem odio, disseram ainda algumas palavras de cama a cama, riram de uma ou outra lembrança da rua, ate que o somno entrou com os seus pés de lã e bico calado, e tomou conta da alcova inteira.
[CAPITULO XIX]
Apenas duas.—Quarenta annos. Terceira causa
Um dos meus proposrtos neste livro é não lhe pôr lagrimas. Entretanto, não posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e fôram morrer-lhe aos cantos da bôca. Tão depressa as verteu como as engoliu, renovando ás avessas e por palavras mudas o fecho daquellas historias de creanças: «entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei nosso senhor que nos conte outra.» E a segunda creança contava segunda historia, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o fastio ou o somno. Pessoas que datam do tempo em que se contavam taes historias affirmam que creanças não punham naquella formula nenhuma monarchica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar o seu Decameron dellas, herdado do velho reino portuguez, quando os reis mandavam o que queriam, e a nação dizia que era muito bem.
Engolidas as duas lagrimas, Natividade riu da propria fraqueza. Não se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em particular; mas no secreto do coração, lá muito ao fundo, onde não penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso. Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.
Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte dos filhos, uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram mais frequentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia receiar que elles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a ideia da grandeza e da prosperidade,—cousas futuras!—e esta esperança era como um lenço que enxugasse os olhos da bella senhora. As Sibyllas não terão dito só do mal, nem os Prophetas, mas ainda do bem, e principalmente delle.
Com esse lenço verde enxugou ella os olhos, e teria outros lenços, se aquelle ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, não verde como a esperança, mas azul, como a alma della. Ainda lhes não disse que a alma de Natividade era azul. Ahi fica. Um azul celeste, claro e transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a noite escurecia.
Não, leitor, não me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se fosse hoje. Chegou assim aos quarenta annos. Não importa; o céu é mais velho e não trocou de côr. Uma vez que lhe não attribuas ao azul da alma nenhuma significação romantica, estás na conta. Quando muito, no dia em que perfez aquella edade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que passára? Nada, um dia mais que na vespera, algumas horas apenas. Toda uma questão de numero, menos que numero, o nome do numero, esta palavra quarenta, eis o mal unico. Dahi a melancolia com que ella disse ao marido, agradecendo o mimo do anniversario: «Estou velha, Agostinho!» Santos quiz esganal-a brincando.
Pois faria mal se a esganasse. Natividade ainda tinha as fôrmas do tempo anterior á concepção, a mesma flexibilidade, a mesma graça miuda e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer engrossar, e os quadris e o collo eram do mesmo estofador antigo.