[CAPITULO XXIV]
Robespierre e Luiz XVI
Tanto cresceram as opiniões de Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a incorporar-se em alguma cousa. Iam descendo pela rua da Carioca. Havia alli uma loja de vidraceiro, com espelhos de vario tamanho, e, mais que espelhos, tambem tinha retratos velhos e gravuras baratas, com e sem caixilho. Pararam alguns instantes, olhando á toa. Logo depois, Pedro viu pendurado um retrato de Luiz XVI, entrou e comprou-o por oitocentos reis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante. Paulo quiz ter egual fortuna, adequada ás suas opiniões, e descobriu um Robespierre. Como o logista pedisse por este mil e duzentos, Pedro exaltou-se um pouco.
—Então o senhor vende mais barato um rei, e um rei martyr?
—Ha de perdoar, mas é que esta outra gravura custou-me mais caro, redarguiu o velho logista. Nós vendemos conforme o preço da compra. Veja; está mais nova.
—Lá isso, não, acudiu Paulo. São do mesmo tempo; mas é que este vale mais que aquelle.
—Ouvi dizer que tambem era rei...
—Qual, rei! responderam os dous.
—Ou quiz sel-o, não sei bem... Que eu de historias, apenas conheço a dos mouros que aprendi na minha terra com a avó, alguns bocados em verso. E elle ainda ha mouras lindas; por exemplo, esta; apesar do nome, creio que era moura, ou ainda é, se vive... Mal lhe saiba ao marido!