Foi a um canto e trouxe um retrato de Madame de Stael, com o famoso turbante na cabeça. Ó effeito da belleza! Os rapazes esqueceram por um instante as opiniões politicas e ficaram a olhar longamente a figura de Corinna. O logista, apesar dos seus setenta annos, tinha os olhos babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabeça, a bôca um tanto grossa, mas expressiva, e dizia que não era caro. Como nenhum quizesse compral-a, talvez por ser só uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas esse era «uma pouca vergonha,» phrase que os deuses lhe perdoariam, quando soubessem que elle não quiz mais que abrir o appetite aos freguezes. E foi a um armario, tirou de lá, e trouxe uma Diana, núa como vivia cá em baixo, outr'ora, nos mattos. Nem por isso a vendeu. Teve de contentar-se com os retratos politicos.

Quiz ainda ver se colhia algum dinheiro, vendendo-lhes um retrato de Pedro I, encaixilhado, que pendia da parede; mas, Pedro recusou por não ter dinheiro disponivel, e Paulo disse que não daria um vintem pela «cara de traidores». Antes não dissesse nada! O logista, tão depressa lhe ouviu a resposta como despiu as fôrmas obsequiosas, vestiu outras indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moço tinha razão.

—Tem muita razão. Foi um traidor, mau filho. mau irmão, mau tudo. Fez todo o mal que pôde a este mundo; e no inferno, onde está, se a religião não mente, deve ainda fazer mal ao Diabo. Este moço falou ha pouco em rei martyr,—continuou mostrando-lhes um retrato de D. Miguel de Bragança, meio perfil, sobrecasaca, mão ao peito,—este é que foi um verdadeiro martyr daquelle, que lhe roubou o throno, que não era seu, para dal-o a quem não pertencia; e foi morrer á mingua o meu pobre rei e senhor, dizem que na Allemanha, ou não sei onde. Ah! malhados! Ah! filhos do Diabo! Os senhores não podem imaginar o que era aquella canalha de liberaes. Liberaes! Liberaes do alheio!

—É tudo a mesma farinha, reflexionou Paulo.

—Eu não sei se elles eram de farinha, sei que levaram muita pancada. Venceram, mas apanharam deveras. Meu pobre rei!

Pedro quiz responder ao remoque do irmão, e propoz comprar o retrato de Pedro I. Quando o logista tornou a si, começou a negociar a venda, mas não poderam entender-se no preço; Pedro dava os mesmos oitocentos reis do outro, o logista pedia dous mil reis. Notava-lhe que estava encaixilhado, e Luiz XVI não; além disso, era mais novo. E vinha á porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a attenção para o rosto, os olhos principalmente, que bella expressão que tinham! E o manto imperial...

—Que lhe custa dar dous mil reis?

—Dou-lhe dez tostões; serve?

—Não serve. Mais que isso me custou elle.

—Pois então...