—Não, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto.

—Mas eu sou a sua ultima parenta, disse ella.

—De sangue e de coração, isso é, concordou elle; póde accrescentar que a melhor de todas e a mais pia. Onde estão aquelles cabellos...? Não precisa baixar os olhos. Você os cortou para metter no caixão de seu finado marido. Os que ahi estão embranqueceram; mas os que lá ficaram eram pretos, e mais de uma viuva os teria guardado todos para as segundas nupcias.

Rita gostou de ouvir aquella referencia. Outr'ora, não; pouco depois de viuva, tinha vexame de um acto tão sincero; achava-se quasi ridicula. Que valia cortar os cabellos por haver perdido o melhor dos maridos? Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera bem, a approvar que lh'o dissessem, e, na intimidade, a lembral-o. Agora serviu a allusão para replicar:

—Pois se eu sou isso, porque é que você prefere viver com extranhos?

—Que extranhos? Não vou viver com ninguem. Viverei com o Cattete, o largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. Ha lá cousas exquisitas, mas sei eu se venho achar em Andarahy uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que sabemos. Lá os meus pés andam por si. Ha alli cousas petrificadas e pessoas immortaes, como aquelle Custodio da confeitaria, lembra-se?

—Lembra-me, a Confeitaria do Imperio.

—Ha quarenta annos que a estabeleceu; era ainda no tempo em que os carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo está velho, mas não acaba; ainda me ha de enterrar. Parece rapaz; apparece-me lá todas as semanas.

—Você tambem parece rapaz.

—Não brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho, pôde ser; mas não é por agradar a moças, é porque me ficou este geito... E a proposito, porque não vae você morar commigo?