—Ah! é para saber que tambem eu gosto de estar commigo. Irei lá de vez em quando, mas já não saio d'aqui, se não para o cemiterio.

Ajustaram visitar um ao outro; Ayres viria jantar ás quinta-feiras. D. Rita ainda lhe falou dos casos de molestia d'elle, ao que Ayres replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse viria para Andarahy; o coração della era o melhor dos hospitaes. Talvez que em todas essas recusas houvesse tambem a necessidade de fugir á contradicção, porque a irmã sabia inventar occasiões de dissidencia. Naquelle mesmo dia (era ao almoço) elle achou o café delicioso, mas a irmã disse que era ruim, obrigando-o a um grande esforço para tornar atraz e achal-o detestavel.

A principio, Ayres cumpriu a solidão, separou-se da sociedade, metteu-se em casa, não apparecia a ninguem ou a raros e de longe em longe. Em verdade estava cançado de homens e de mulheres, de festas e de vigilias. Fez um programma. Como era dado a letras classicas, achou no padre Bernardes esta traducção daquelle psalmo: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.» Foi a sua divisa. Santos, se lh'a dessem, fal-a-hia esculpir, á entrada do salão, para regalo dos seus numerosos amigos. Ayres deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar calado, parte pelo sentido, parte pela linguagem velha: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.»

Assim foi a principio, Às quinta-feiras ia jantar com a irmã. Às noites passeava pelas praias, ou pelas ruas do bairro. O mais do tempo era gasto em ler e reler, compôr o Memorial ou rever o composto, para relembrar as cousas passadas. Estas eram muitas e de feição diversa, desde a alegria até a melancolia, enterramentos e recepções diplomaticas, uma braçada de folhas seccas, que lhe pareciam verdes agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e elle não acertava logo quem fossem, mas era um recreio procural-as, achal-as e completal-as.

Mandou fazer um armario envidraçado, onde metteu as reliquias da vida, retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assignado por iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. Não vale a pena dizer o nome.


[CAPITULO XXXIII]

A solidão tambem cança

Mas tudo cança, até a solidão. Ayres entrou a sentir uma ponta de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva, extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros excentricos, trepava aos morros, ia ás egrejas velhas, ás ruas novas, á Copacabana e á Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas. Tudo isso escrevia, ás noites, para se fortalecer no proposito da vida solitaria. Mas não ha proposito contra a necessidade.

A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a conversação. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso fôram os primeiros passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade do riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto biblico, como na traducção do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o sentido; «Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.»