—Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica.

—Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me cair, as rodam passam por cima...

—Fosse como fosse, chegou a proposito.

—Chego sempre a proposito. Já lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos annos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castello. Não se lembra de uma tal ou qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente? Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como sempre tive fé em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella?

Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado então a consulta que ella fez á cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario, sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo. E concluiu:

—Mas, emfim, porque é que chego a proposito?

Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta senhora, uma confiança que ella não achava agora em ninguem, ou acharia em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que não mostraria ao marido.

—Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor não dizer nada a Agostinho.

Ayres concordou que não valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em politica, e tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que não teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas não de sentimentos.

—Então crê que Paulo será sempre isto?