—Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta.

—Pois você não vê, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano, explicou ella relendo a phrase que a affligira.

Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão. Entretanto, não havia de as supprimir.

—Pois não se transcreve o discurso.

—Ah! isso não! O discurso é magnifico, e não ha de morrer em S. Paulo; é preciso que a Côrte o leia, e as provincias tambem, e até não se me daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, póde ser que fique ainda melhor.

—Mas, Agostinho, isto póde fazer mal á carreira do rapaz; o imperador póde ser que não goste...

Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom por a phrase toda, e, a rigor, não difteria muito do que os liberaes diziam em 1848.

—Um monarchista liberal póde muito bem assignar esse trecho, concluiu elle depois de reler as palavras do irmão.

—Justamente! assentiu o pae.

Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na bôca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a reimpressão do discurso foi resolvida. Tambem se tirou uma edição em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a Regente.