—Você diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo é liberal ardente...

—Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro.

Santos cumpriu tudo á risca. A entrega se fez naturalmente, e, no palacio Isabel, a definição do «liberal de 1848» saiu mais viva que as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico. Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrança, Natividade quiz saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o lêra.

—Parece que foi boa. Disse-me que já havia lido o discurso. Nem por isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de um liberal de 1848...

—Papae disse isso? perguntou Pedro.

—Porque não, se é verdade? Paulo é o que se póde chamar um liberal de 1848, repetiu Santos querendo convencer o filho.


[CAPITULO XLIV]

O salmão

Pelas férias é que Paulo soube da interpretação que o pae dera á Regente daquelle trecho do discurso. Protestou contra ella, em casa; quiz fazel-o tambem em publico, mas Natividade interveiu a tempo. Ayres pôz agua na fervura, dizendo ao futuro bacharel: