—Muito bem, muito bem, minha filha.

—Não é, papae?

Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario. Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado. Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres. Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia; chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito, admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara, uma commissão, a vice-presidencia do Rio...


[CAPITULO XLVIII]

Terpsichore

Nenhuma dessas cousas preoccupava Natividade. Mais depressa cuidaria do baile da ilha Fiscal, que se realisou em novembro para honrar os officiaes chilenos. Não é que ainda dançasse, mas sabia-lhe bem ver dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. Esta opinião é um dos effeitos daquelle mau costume de envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Ha outros tambem ruins, nenhum peor, este é o pessimo. Deixa lá dizerem philosophos que a velhice é um estado util pela experiencia e outras vantagens. Não envelheças, amiga minha, por mais que os annos te convidem a deixar a primavera; quando muito, acceita o estio. O estio é bom, callido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu apparece logo azul. Assim dançarás sempre.

Bem sei que ha gente para quem a dança é antes um prazer dos olhos. Nem as bailadeiras são outra cousa mais que mulheres de officio. Tambem eu, se é licito citar alguem a si mesmo, tambem eu acho que a dança é antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos annos longos e grisalhos, mas tambem outra que não digo, por não valer a pena. Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto, sem ser preciso notal-o, mas não se perde nada em repetil-o.

Por exemplo, D. Claudia. tambem ella pensava no baile da ilha Fiscal, sem a menor ideia de dançar, nem a razão esthetica da outra. Para ella, o baile da ilha era um facto politico, era o baile do ministerio, uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma presidencia. Via-se já com a familia imperial. Ouvia a princeza:

—Como vae, D. Claudia?