—Perfeitamente bem, Serenissima senhora.
E Baptista conversaria com o imperador, a um canto, deante dos olhos invejosos que tentariam ouvir o dialogo, á força de os fitarem de longe. O marido é que... Não sei que diga do marido relativamente ao baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a gosto; póde ser que traduzissem esse acto por meia conversão. Não é que só fossem liberaes ao baile, tambem iriam conservadores, e aqui cabia bem o aphorismo de D. Claudia que não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.
Santos é que não precisava de ideias para dançar. Não dançaria sequer. Em moço dançou muito, quadrilhas, polkas, valsas, a valsa arrastada e a valsa pulada, como diziam então, sem que eu possa definir melhor a differença; presumo que na primeira os pés não saiam de chão, e na segunda não caiam do ar. Tudo isso até os vinte e cinco annos. Então os negocios pegaram delle e o metteram naquella outra contradança, em que nem sempre se volta ao mesmo logar ou nunca se sáe delle. Santos saiu e já sabemos onde está. UItimamente teve a fantasia de ser deputado. Natividade abanou a cabeça, por mais que elle explicasse que não queria ser orador nem ministro, mas tão sómente fazer da camara um degrau para o senado, onde possuia amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.
—Eterno? interrompeu ella com um sorriso fino e descorado.
—Vitalicio, quero dizer.
Natividade teimou que não, que a posição delle era commercial e bancaria. Accrescentou que politica era uma cousa e industria outra. Santos replicou, citando o barão de Mauá, que as fundiu ambas. Então a mulher declarou por um modo secco e duro que aos sessenta annos ninguem começa a ser deputado.
—Mas é de passagem; os senadores são edosos.
—Não, Agostinho, concluiu a baroneza com um gesto definitivo.
Não conto Ayres, que provavelmente dançaria, a despeito dos annos; tambem não falo de D. Perpetua, que nem iria lá. Pedro iria, e é natural que dançasse, e muito, não obstante o afinco e paixão dos seus estudos. Vivia enfeitiçado pela medicina. No quarto de dormir, além do busto de Hyppocrates, tinha os retratos de algumas summidades medicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita molestia pintada, peitos cortados verticalmente para se lhe verem os vasos, cerebros descobertos, um cancro de lingua, alguns aleijões, cousas todas que a mãe, por seu gosto mandaria deitar fóra, mas era a sciencia do filho, e bastava. Contentava-se de não olhar para os quadros.
Quanto a Flora, ainda verde para os meneios de Terpsichore, era acanhada ou arrepiada, como dizia a mãe. E isto era o menos; o mais era que com pouco se enfadaria, e, se não pudesse vir logo para casa, ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha, teria o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse o mar, e se consolasse com a esperança de o mirar, advertiria tambem que a noite escura tolheria a consolação. Que multidão de dependencias na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si.