A quem quer que este final do monologo pareça egoista, peço-lhe pelas almas dos seus parentes amigos, que estão no céu, peço-lhe que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz, a contiguidade da moça, as raizes e as flores da paixão, a propria edade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere mais a vontade do céu, que vela por todas as creaturas que se querem, salvo se uma só é que quer a outra, porque então o céu é um abysmo de iniquidades, e não lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando só e contando mal o que se passou naquelle curto transito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de bôca.
Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assumpto da presidencia voltou. Flora notou então a cautelosa insistencia com que Ayres olhava para elles, como se buscasse adivinhar a materia da conversação. Sentia que não estivesse alli tambem, ouvindo e falando, finalmente promettendo fazer alguma cousa por ella. Ayres podia, sim,—era seu amigo e todos o tinham em grande conta,—podia intervir e destruir o projecto da presidencia.
Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata. Retirava-os, mas elles iam de si mesmos repetir o monologo, e acaso perguntar alguma cousa que Ayres não percebia e devia ser interessante. Póde ser que reflectissem a angustia ou o que quer que era que lhe doia dentro. Póde ser; a verdade é que Ayres começou a ficar curioso, e tão depressa Pedro deixou o logar para acudir ao chamado da mãe, deixou elle Natividade para ir falar á moça.
Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas que se não podem interromper sem dôr ou prurido, ao menos. Ayres perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.
—Não, senhor.
—Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.
Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar, respondeu-lhe que só adivinhára metade.
—A outra é...?
—A outra é pedir-lhe um obsequio de amizade.
—Peça.