—Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe e papae estão fazendo as despedidas. Só se fôr na rua. Quer vir comnosco a S. Clemente?
—Com o maior prazer.
[CAPITULO LIII]
De confidencias
Entenda-se que não. Não era com prazer maior nem menor. Era imposição de sociedade, desde que Flora o pedira, não sei se discretamente. Que a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum segredo, não serei eu que o negue, nem tu, nem elle mesmo. Ao cabo de alguns instantes, Ayres ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas, falhadas ou não nascidas, vozes de pae. Os gemeos não lhe deram um dia a mesma sensação, senão porque eram filhos de Natividade. Aqui não era a mãe, era a mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e por ventura a sua fatalidade.
—Mas quer-me parecer que desta vez ella está presa; escolheu emfim, pensou Ayres.
Flora falou-lhe da presidencia, mas não lhe pediu segredo, como as outras pessoas; confessou-lhe que não queria ir daqui, fosse para onde fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mãos delle. Só elle podia despersuadir o pae de acceitar a presidencia. Ayres achou tão absurdo este pedido que esteve quasi a rir, mas susteve-se bem. A palavra de Flora era grave e triste. Ayres respondeu, com brandura, que não podia nada.
—Póde muito, todos attendem aos seus conselhos.
—Mas eu não dou conselhos a ninguem, acudiu Ayres. Conselheiro é um titulo que o imperador me conferiu, poi achar que o merecia, mas não obriga a dar conselhos; a elle mesmo só lh'os darei, se m'os pedir. Imagine agora se eu vou á casa de um homem ou mando chamal-o á minha para lhe dizer que não seja presidente de provincia. Que razão lhe daria?