Não tinha razões a moça; tinha necessidade. Appellou para os talentos do ex-ministro, que acharia uma razão boa. Nem se precisavam razões, bastava o falar delle, a arte que Deus lhe dera de agradar a toda a gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quizesse. Ayres viu que ella exagerava para o attrair, e não lhe pareceu mal. Não obstante, contestou taes meritos e virtudes. Deus não lhe dera arte nenhuma, disse elle, mas a moça ia sempre affirmando, em tal maneira que Ayres suspendeu a contestação, e fez uma promessa.

—Vou pensar; amanhã ou depois, se achar algum recurso, tentarei o negocio.

Era um palliativo. Era tambem um modo de fazer cessar a conversação, estando a casa proxima. Não contava com o pae de Flora, que á fina força lhe quiz mostrar, áquella hora, uma novidade, aliás uma velharia, um documento de valor diplomatico. «Venha, suba, cinco minutos apenas, conselheiro.»

Ayres suspirou em segredo, e curvou a cabeça ao Destino. Não se luta contra elle, dirás tu; o melhor é deixar que pegue pelos cabellos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos. Baptista nem lhe deu tempo de reflectir; era todo desculpas.

—Cinco minutos e está livre de mim, mas verá que lhe pago o sacrificio.

O gabinete era pequeno; poucos livros e bons, os moveis graves, um retrato de Baptista com a farda de presidente, um almanaque sobre a mesa, um mappa na parede, algumas lembranças do governo da provincia. Emquanto Ayres circulava os olhos, Baptista foi buscar o documento. Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento, que não estava só, mas com outros. Conhecia-se logo por ser um papel velho, amarello, em partes roido. Era uma carta do conde de Oeyras, escripta ao ministro de Portugal na Hollanda.

—É o dia das antiquidades, pensou Ayres; a taboleta, o tinteiro, este autographo...

—A carta é importante, mas longa, disse Baptista, não podemos lel-a agora. Quer leval-a?

Não lhe deu tempo de responder; pegou de uma sobrecarta grande e metteu dentro o manuscripto, com esta nota por fóra: «Ao meu excellentissimo amigo conselheiro Ayres.» Emquanto elle fazia isto, Ayres passava os olhos pela lombada de alguns livros. Entre elles havia dous Relatorios da presidencia de Baptista, ricamente encadernados.

—Não me attribua esse luxo, acudiu o ex-presidente; foi um mimo da secretaria do Governo que nunca fez isto ninguem. Era um pessoal muito distincto.