[CAPITULO LIV]

Emfim, só!

Emfim, só! Quando Ayres se achou na rua, só, livre, solto, entregue a si mesmo, sem grilhões nem considerações, respirou largo. Fez um monologo, que d'ahi a pouco interrompeu por se lembrar de Flora. Tudo o que ella não quizera ia acontecer; lá ia o pae a uma presidencia, e ella com elle, e a recente inclinação ao joven Pedro vinha parar a meio caminho. Entretanto, não se arrependia do que dissera e ainda menos do que não dissera. Os dados estavam lançados. Agora era cuidar de outra cousa.


[CAPITULO LV]

«A mulher é a desolação do homem»

Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexão, que ponho aqui, para o caso de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexão foi obra de espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão difficil em ceder ás instigações da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII) deitou tão facilmente o habito ás ortigas. Não achou explicação, nem a acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que os primeiros passos da conversão do homem fôram dados pela mulher. «A mulher é a desolação do homem», dizia não sei que philosopho socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando elle soube do namoro, já os banhos estavam corridos; não havia mais que consentir e casar tambem.

Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemão os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme.

—Estamos á porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e certamente o partido liberal não deixa tão cedo o poder. Os seus homens são válidos, a inclinação dos tempos é para o liberalismo, e você mesmo...