—Sim, eu... suspirou Baptista.
D. Claudia não suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era a primeira figura de acquiescencia. Não lhe disse isto assim, nu e cru; tambem não revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem da razão fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado, caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça, nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, não lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a autoria de que se investiu e acabou confessando.
Tal foi a conclusão de Ayres, segundo se lê no Memorial. Tal será a do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de Ayres; não o obriguei a achar por si o que, de outras vezes, é obrigado a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.
[CAPITULO LVI]
O golpe
O dia seguinte trouxe á menina Flora a grande novidade. Sabbado seria assignado o decreto; a presidencia era no norte. D. Claudia não lhe viu a pallidez, nem sentiu as mãos frias, continuou a falar do caso e do futuro, até que Flora, querendo sentar-se, quasi caiu. A mãe acudiu-lhe:
—Que é? Que tens?
—Nada, mamãe não é nada.
A mãe fel-a sentar-se.