—Foi uma tonteira, passou.
D. Claudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe os pulsos; Flora sorriu.
—Este sabbado? perguntou.
—O decreto? Sim, este sabbado. Mas não digas por ora a ninguem; são segredos de gabinete. É cousa certa; emfim, alguem nos fez justiça; provavelmente o imperador. Amanhã irás commigo a algumas encommendas. Faze uma lista do que precisas.
Flora precisava não ir e só pensava nisso. Uma vez que o decreto estava prestes a ser assignado, não havia já desaconselhar a nomeação; restava-lhe a ella ficar. Mas como? Todos os sonhos são proprios ao somno de uma creança. Não era facil, mas não seria impossivel. Flora cria tudo; não tirava o pensamento de Ayres, e já agora de Natividade tambem. Os dous podiam fazel-o, ou antes os trez, se contardes tambem o barão, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco estrellas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e archanjos, virgens e martyres... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer esta simples acção de impedir que Flora fosse para a provincia. Taes eram as esperanças vagas, rapidas, que corriam a substituir as tristezas do rosto da moça, emquanto a mãe, attribuindo o effeito ao vinagre, ajustava a rolha de vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador.
—Faze uma lista do que precisas, repetiu á filha.
—Não, mamãe, eu não preciso nada.
—Precisas, sim, eu sei o que precisas.