Eulalia sorriu sem convicção. Sentada na cadeira fronteira á mãe, ao pé da outra ponta do sophá em que estava D. Maria dos Anjos,—Eulalia dava á conversação das duas a somma de attenção que a cortezia lhe impunha, e nada mais, Chegava a parecer aborrecida; cada sorriso que lhe abria a bocca era de um amarello pallido, um sorriso de favor. Uma das tranças,—era de manhã, trazia o cabello em duas tranças caidas pelas costas abaixo,—uma dellas servia-lhe de pretexto a alheiar-se de quando em quando, porque puxava-a para a frente e contava-lhe os fios do cabello,—ou parecia contal-os. Assim o creu D. Maria dos Anjos, quando lhe lançou uma ou duas vezes os olhos, curiosa, desconfiada. D. Benedicta é que não via nada; via a amiga, a feiticeira, como lhe chamou duas ou tres vezes,—«feiticeira como ella só.»
—Já!
D. Maria dos Anjos explicou que tinha de ir a outras visitas; mas foi obrigada a ficar ainda alguns minutos, a pedido da amiga. Como trouxesse um mantelete de renda preta, muito elegante, D. Benedicta disse que tinha um egual, e mandou buscal-o. Tudo demoras. Mas a mãe do Leandrinho estava tão contente! D. Benedicta enchia-lhe o coração; achava nella todas as qualidades que melhor se ajustavam á sua alma e aos seus costumes, ternura, confiança, enthusiasmo, simplicidade, uma familiaridade cordial e prompta. Veiu o mantelete; vieram offerecimentos de alguma cousa, um doce, um licor, um refresco; D. Maria dos Anjos não aceitou nada mais do que um beijo e a promessa de que iriam jantar com ella naquella semana.
—Quinta-feira, disse D. Benedicta.
—Palavra?
—Palavra.
—Que quer que lhe faça se não fôr? Hade ser um castigo bem forte.
—Bem forte? Não me falle mais.
D. Maria dos Anjos beijou com muita ternura a amiga; depois abraçou e beijou tambem a Eulalia, mas a effusão era muito menor de parte a parte. Uma e outra mediam-se, estudavam-se, começavam a comprehender-se. D. Benedicta levou a amiga até o patamar da escada, depois foi á janella para vel-a entrar no carro; a amiga, depois de entrar no carro, poz a cabeça de fóra, olhou para cima, e disse-lhe adeus, com a mão.
—Não falte, ouviu?