—Quinta-feira.
Eulalia já não estava na sala; D. Benedicta correu a acabar a carta. Era tarde: não relatára o jantar da vespera, nem já agora podia fazel-o. Resumiu tudo; encareceu muito as novas relações; emfim, escreveu estas palavras:
«O conego Roxo fallou-me em casar Eulalia com o filho de D. Maria dos Anjos; é um moço formado em direito este anno; é conservador, e espera uma promotoria, agora, se o Itaborahy não deixar o ministerio. Eu acho que o casamento é o melhor possivel. O Dr. Leandrinho (é o nome delle) é muito bem educado; fez um brinde a você, cheio de palavras tão bonitas, que eu chorei. Eu não sei se Eulalia quererá ou não; desconfio de outro sujeito que outro dia esteve comnosco nas Larangeiras. Mas você que pensa? Devo limitar-me a aconselhal-a, ou impor-lhe a nossa vontade? Eu acho que devo usar um pouco da minha autoridade; mas não quero fazer nada sem que você me diga, O melhor seria se você viesse cá.»
Acabou e fechou a carta; Eulalia entrou nessa occasião, ella deu-lh'a para mandar, sem demora, ao correio; e a filha saiu com a carta sem saber que tratava della e do seu futuro, D. Benedicta deixou-se cair no sophá, cançada, exhausta. A carta era muito comprida apezar de não dizer tudo; e era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas!
[III]
Era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas! Esta palavra, fecho do capitulo passado, explica a longa prostração de D. Benedicta. Meia hora depois de cair no sophá, ergueu-se um pouco, e percorreu o gabinete com os olhos, como procurando alguma cousa. Essa cousa era um livro. Achou o livro, e podia dizer achou os livros, pois nada menos de tres estavam alli, dous abertos, um marcado em certa pagina, todos em cadeiras. Eram tres romances que D. Benedicta lia ao mesmo tempo. Um delles, note-se, custou-lhe não pouco trabalho. Deram-lhe noticia na rua, perto de casa, com muitos elogios; chegara da Europa na vespera. D. Benedicta ficou tão enthusiasmada, que apezar de ser longe e tarde, arrepiou caminho e foi ella mesmo compral-o, correndo nada menos de tres livrarias. Voltou anciosa, namorada do livro, tão namorada que abriu as folhas, jantando, e leu os cinco primeiros capitulos naquella mesma noute. Sendo preciso dormir, dormiu; no dia seguinte não pôde continuar, depois esqueceu-o. Agora, porém, passados oito dias, querendo lêr alguma cousa, aconteceu-lhe justamente achal-o á mão.
—Ah!
E eil-a que torna ao sophá, que abre o livro com amor, que mergulha o espirito, os olhos e o coração na leitura tão desastradamente interrompida. D. Benedicta ama os romances, é natural; e adora os romances bonitos, é naturalissimo. Não admira que esqueça tudo para lêr este; tudo, até a licção de piano da filha, cujo professor chegou e saiu, sem que ella fosse á sala. Eulalia despediu-se do professor; depois foi ao gabinete, abriu a porta, caminhou pé ante pé até o sophá, e acordou a mãe com um beijo.
—Dorminhoca!
—Ainda chove?