—Não, senhora; agora parou.

—A carta foi?

—Foi; mandei o José a toda a pressa. Aposto que mamãe esqueceu-se de dar lembranças a papae? Pois olhe, eu não me esqueço nunca.

D. Benedicta bocejou. Já não pensava na carta; pensava no collete que encommendára á Charavel, um collete de barbatanas mais molles do que o ultimo. Não gostava de barbatanas duras; tinha o corpo mui sensivel. Eulalia fallou ainda algum tempo do pae, mas calou-se logo, e vendo no chão o livro aberto, o famoso romance, apanhou-o, fechou-o, pol-o em cima da mesa. Nesse momento vieram trazer uma carta a D. Benedicta; era do conego Roxo, que mandava perguntar se estavam em casa naquelle dia, porque iria ao enterro dos ossos.

—Pois não! bradou D. Benedicta; estamos em casa, venha, póde vir.

Eulalia escreveu o bilhetinho de resposta. D'ahi a tres quartos de hora fazia o conego a sua entrada na sala de D. Benedicta. Era um bom homem o conego, velho amigo daquella casa, na qual, além de trinchar o perú nos dias solemnes, como vimos, exercia o papel de conselheiro, e exercia-o com lealdade e amor. Eulalia, principalmente, merecia-lhe muito; vira-a pequena, galante, travessa, amiga delle, e criou-lhe uma affeição paternal, tão paternal que tomára a peito casal-a bem, e nenhum noivo melhor do que o Leandrinho, pensava o conego, Naquelle dia, a idéa de ir jantar com ellas era antes um pretexto; o conego queria tratar o negocio directamente com a filha do desembargador. Eulalia, ou porque adivinhasse isso mesmo, ou porque a pessoa do conego lhe lembrasse o Leandrinho, ficou logo preoccupada, aborrecida.

Mas, preoccupada ou aborrecida, não quer dizer triste ou desconsolada. Era resoluta, tinha têmpera, podia resistir, e resistiu, declarando ao conego, quando elle naquella noute lhe fallou do Leandrinho, que absolutamente não queria casar.

—Palavra de moça bonita?

—Palavra de moça feia.

—Mas, porque?