—Deolindo! Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher á porta de uma colchoaria.
Rubião ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que descia e uma creança de tres ou quatro annos que atravessava a rua. Os cavallos vinham quasi em cima della, por mais que o cocheiro os sofreasse. Rubião atirou-se aos cavallos e arrancou o menino ao perigo. A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião, não podia fallar; estava pallida, tremula, e chorava. Algumas pessoas puzeram-se a altercar com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando. O cocheiro obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veiu fóra, já o carro dobrava a esquina de S. José.
—Ia quasi morrendo, disse a mãe. Se não fosse este senhor, não sei o que seria do meu pobre filho.
Era uma novidade no quarteirão. Visinhos entravam a vêr o que succedêra ao pequeno; na rua, creanças e moleques, espiavam pasmados. A creança tinha apenas um arranhão no hombro esquerdo, produzido pela queda.
—Não foi nada, disse Rubião; em todo caso, não deixem o menino sair á rua; é muito pequenino.
—Obrigado, acudiu o pae; mas onde está o seu chapéo?
Rubião advertiu então que perdêra o chapéo. Um rapazinho esfarrapado, que o apanhára, estava á porta da colchoaria, aguardando a occasião de restituil-o. Rubião deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o rapazinho não cuidára, ao ir apanhar o chapéo. Não o apanhou senão para ter uma parte na gloria e nos serviços. Entretanto, aceitou os cobres com prazer; foi talvez a primeira ideia que lhe deram da venalidade das acções.
—Mas, espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?
Com effeito, a mão do nosso amigo tinha sangue; havia um ferimento na palma, cousa pequena, e que elle não podia saber se era obra do dente do cavallo, se de algum ferrão das correias. A verdade é que só agora começou a sentil-o. A mãe do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha, apezar de dizer o Rubião que não era nada, que não valia a pena. Veiu a agua; emquanto elle lavava a mão, o colchoeiro correu á pharmacia proxima, e trouxe um pouco de arnica. Rubião curou-se, atou o lenço na mão; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéo; e, quando elle sahiu, um e outro agradeceram-lhe muito o beneficio da salvação do filho. A outra gente, que estava á porta e na calçada, fez-lhe alas.