—Tem razão; eu devia tel-o pensado, assentiu Procopio Dias. Mas que quer? Nada se deve imputar aos dementes e aos namorados. Perdoa-me? Em todo caso, pode crer que a minha indole não é tão tolerante com o vicio que me fizesse desejar haver dado em balda certa. Não sou rigoroso; sei que as paixões governam os homens, e que a força de as reger não é vulgar. Por isso mesmo é que se estima a virtude. No dia em que a natureza se fizer communista e distribuir egualmente as boas qualidades moraes, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo cousa nenhuma.
—Deixe-me falar-lhe com franqueza, disse Jorge, rindo; eu desconfio que o senhor é ainda menos rigoroso do que diz. Parece-me que se a sua suspeita, em relação á outra, tivesse fundamento, o senhor não me ouviria com indignação.
—Talvez estimasse.
Jorge não disse nada; olhou sómente para o interlocutor, com um ar de estupefacção, a que o outro sorriu benevolamente. Fez-se uma curta pausa. Procopio Dias rompeu emfim o silencio:
—Talvez estimasse, sem deixar de indignar-me depois; isto é, a indignação no momento seria abafada pelo interesse. Attenda-me, doutor; sejamos justos com o natureza humana. Virtudes inteiriças são invenções de poetas. Não me fazia bom cabello que a senhor gostasse da outra, e menos ainda que ella lhe correspondesse, porque, em summa; ambicionando entrar na familia, não desejaria que a familia tivesse a menor macula. Esta é a realidade. Mas, eu amo, doutor; e por mais ridicula que pareça esta confissão, por mais grosseira que seja a minha casca, a verdade é que amo a enteada apaixonadamente: é o meu pensamento de todos os dias. Ora, dado que o senhor amasse a outra, qual era o primeiro movimento do meu coração? Ligal-os ao meu interesse. Desde que entre os dous houvesse um segredo, e que esse segredo fosse descoberto ou suspeitado por mim, o senhor e ella eram os meus melhores alliados, e a resistencia daquella menina, e a vontade do pae, tudo cedia em meu favor.
Procopio Dias proferiu estas palavras com simplicidade e convicção. Seus olhos plumbeos pareciam duas portas abertas sobre a consciencia. A expressão do rosto era a de um cynismo candido. Jorge contemplou-o alguns instantes sem dizer palavra, ao parecer subjugado pelo raciocinio. Ouvira-o pasmado e satisfeito. Tanta franqueza não mostrava que Procopio Dias já não suspeitava nada? Jorge sorriu e replicou:
—O que o senhor acaba de dizer não será animador, mas persuado-me que é a realidade pura. Admira-me sómente que tenha tanta penetração e superioridade para ver e confessar os vicios da natureza humana...
—Sou pratico, tornou o outro sorrindo. Raras vezes me irrito, comquanto lastime sempre o que é fraqueza ou perversão. Assim, por exemplo, eu não lhe ficaria querendo mal se o senhor me houvesse illudido agora acerca de seus sentimentos, porque o seu interesse e o seu dever é negal-os.
—Perdão; já lhe dei minha palavra...
—Não deu, nem eu lh'a pedi, nem pediria, porque a palavra de honra não obriga a consciencia, quando é dada para salvar uma questão de honra. O senhor poderia dal-a sem sinceridade nem remorso. Já não é a mesma cousa se me jurasse, por que o juramento, invocando o testemunho de um ente superior, esse obriga a consciencia que não está pervertida.