—Não exige de mim que jure, espero eu? disse Jorge.
—Ha ainda uma raiz de duvida, em meu coração, replicou Procopio Dias sorrindo.
—Pois juro-lhe...
Procopio Dias levantou-se de subito.
—Não precisa mais, exclamou elle apertando-lhe as mãos. Agora creio; creio de todo. Não é meu rival, nem corrompe a familia a que pretendo unir-me. Se soubesse o prazer que me deu com a sua ultima palavra! Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se; eu creio que esta expansão pode ter um lado grotesco,—hade ter de certo. O que lhe affianço é que se minha felicidade não é completa depende sómente da fortuna não dos homens...
Sentou-se depois destas palavras, proferidas quasi sem respirar. Jorge acompanhou-o nessa expansão de felicidade. Pareciam satisfeitos um do outro. Procopio Dias confessou que era a primeira pessoa a quem falava de seus sentimentos, e não se vexava de dizer que, ao cabo de alguns mezes, nada podia saber do coração da moça. Ás vezes suppunha ser acceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuasão contraria.
—O senhor naturalmente conhece-a e sabe que obra de contradicção é aquella mocinha, disse elle. Ha occasiões em que sua familiaridade commigo chega quasi á seducção. Talvez exagéro; mas que heide de pensar de uma moça que me pede instantemente que vá lá, em certo dia, com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com um epigramma, ri-se de mim, abusa da complacencia e não sei se do amor, porque, comquanto não lhe haja dito nada, acho natural que ella o tenha descoberto nos meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a não voltar lá, ella torna-se mansa, como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu despeito evapora-se, e eu continuo a minha viagem interminavel.
—Nunca lhe deu a entender nada, ao menos por allusão?
—Nunca; receio que não me deixasse acabar.
—Não creia; eu supponho que ella gosta do senhor.