—Sabe disse?

—Não; mas é o que concluo do que me contou. As mulheres têm ás vezes caprichos; e demais ha naquella uns restos de creança, que a faz ainda mais caprichosa. Meu raciocinio é este: se ella percebeu, e não o repelle absolutamente, é porque o senhor ainda pode ter esperanças...

Procopio Dias não pode exprimir a alegria que estas palavras de Jorge lhe entornaram na alma; seus olhos brilharam da uma luz extranha, depois fecharam-se, emquanto a cabeça pendeu para traz, de um geito languido. Durante essa pausa de alguns minutos, Jorge pode analysar as feições de Procopio Dias, pouco proprias a fascinar uns olhos de dezeseis annos, e achou natural que Yayá não se sentisse tomada de cego enthusiasmo. Comtudo, não era impossivel corresponder-lhe de algum modo, se a razão tomasse as redeas ao coração. Jorge suppunha até que houvesse em Yayá uma semente de sympathia, que bastava fazer germinar.

Entrando no quarto que lhe fora destinado, Procopio Dias estava longe de ter somno; a excitação trazia-o esperto. Entrou, abriu a janella e olhou ao largo. O aroma vivo das plantas da chacara ainda mais lhe apurou o systema. Não era homem de contemplar estrellas nem de fazer philosophias acerca da solidão nocturna e do somno das cousas; limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.

—Gosta da Estella, murmurou elle; antes de jurar podia ser duvidoso; depois do juramento é positivo, se ella não gosta delle faz mal; é um rapaz de espavento.

Depois, abriu as azas ao pensamento e foi direito a Yayá, galgando o espaço e derrubando paredes: foi e contemplou o seu somno de virgem, que elle suppunha ser quieto e puro, mas que a essa mesma hora, era turbado e já complicado das ideias do mal. Procopio Dias deixou-se ir ao sabor da paixão, que era viva e sincera, uma conspiração surda e mysteriosa de todas as forças sensuaes.

A figura terna e virginal de Yayá apparecera-lhe um dia, subitamente, como uma visão não sonhada. Se elle a visse em algum salão aristocratico pensaria nelle uma noite, talvez uma semana, até esquecel-a ou substituil-a. Mas o que o prendeu a Yayá Garcia foi justamente a mediocridade do nascimento. Possuil-a era fazer-lhe um favor. Quantas outras lhe não levaram os olhos de satyro, ao descer de uma carruagem, ou ao resvalar indolentamente o seu talhe na contradança de bom tom? Elle via-as passar ou estar, com os hombros nus ou cingidos da cachemira elegante, risonhas umas, outras sérias, todas altivas e compassadas, e sentia que os annos, feições e maneiras o distanceavam dellas; não era difficil apagal-as de memoria.

Yayá teria antes de agradecer a escolha; era a sua convicção, e foi o que mais o ligou á filha de Luiz Garcia.

Quando a moça reflectisse que acharia no marido a satisfação de todas as velleidades do luxo, o gozo das cousas superfinas, elegantes e raras, devia ceder por força e preferil-o a quem lhe désse apenas coração, trabalho e necessidades. Uma vez brotada a ideia, cresceu e tomou-lhe o cerebro todo. Yayá era então a figura presente a seus olhos, ora divina e casta, ora ardente e lubrica,—lubrica, porque elle em sua imaginação conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.

No dia seguinte acordaram tarde e almoçaram juntos, sem tomar no assumpto da vespera. No fim do almoço, Procopio Dias referiu-se a elle, dizendo que fora excessivo na noite anterior, e pedindo a Jorge que o não levasse a mal; porquanto era tudo filho de um sentimento que não pécca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação.