—Quando olhamos para os nossos, não vemos bem os que lhe ficam por detraz... murmurou ella, a justificar-se.
—É natural! concordou Iégor. A proposito de Pavel: não se inquiete nem se entristeça. Ha de saír da cadeia ainda melhor do que quando para lá entrou. Por lá descansa-se, ha tempo para adquirir instrucção, o que não nos acontece quando estamos á solta. Estive preso tres vezes, sem grande vontade, mas o meu coração e a minha razão aproveitaram sempre...
—Custa-lhe respirar... disse Pélagué olhando para elle affectuosamente.
—Por motivos especiaes... respondeu levantando um dedo para o ar.
—Portanto, está combinado, mãesinha. Ámanhã trazemos-lhe o que sabe, e outra vez entrará em movimento a roda que aniquila as trevas seculares. Viva a liberdade da palavra, mãesinha! e viva o coração materno! Até ámanhã!
—Até ámanhã! disse tambem Samoílof apertando com força a mão de Pélagué. Eu não posso dizer palavra d’isso tudo á minha mãe.
Quando elles saíram, Pélagué fechou a porta e ajoelhando-se no meio do quarto, pôz-se a resar, ao ruido da chuva. Rezou sem soltar dos labios uma só palavra; era como um pensamento muito longo e intenso; rezou por todos aquelles que Pavel associára á sua vida. Via os passar entre ella e as imagens dos santos; eram simples, tão extraordinariamente approximados uns dos outros, e tão isolados na vida.
Logo muito cedo, foi a casa de Maria Korsounova.
A ruidosa vendedeira, com o fato engordurado como sempre, acolheu-a compassivamente:
—Aborreces-te? perguntou, batendo-lhe com a mão no hombro. Consola-te! Agarraram-no, levaram-no? Grande coisa! Que mal ha n’isso? D’antes mettiam uma pessôa na cadeia, quando roubava; agora é quando se diz a verdade. Pavel disse naturalmente coisas que não se devem dizer. Mas foi para defender os companheiros, e isto toda a gente o percebe. Não tenhas medo. Todos sabem que elle é um bello rapaz... embora não o digam. Eu queria ir a tua casa, mas não tive tempo. Estou sempre a cosinhar, esgótto o meu artigo, e afinal estou certa de que virei a morrer pobre. Os amantes arruinam-me! os sacripantas! Comem! comem!... parecem baratas a devorar um pão. Apenas tenho uns dez rublos, apparece-me um d’esses hereticos e rouba-mos! É isto! Má coisa ser mulher! que estupida vida! É difficil viver só, e ainda mais viver acompanhada!