—Pois olha eu vim pedir-te que me acceites como ajudante... disse Pélagué, pondo um dique á catadupa das palavras.

—O quê?!

Mas quando a sua amiga lhe expoz todo o seu pensamento, meneou a cabeça em signal de approvação.

—Está dito. Lembras-te quantas vezes me déste esconderijo quando o meu marido andava á minha procura? Pois serei eu agora que te furtarei á miseria. Cada qual deve correr em teu auxilio porque o teu filho está soffrendo por causa de todos. É um bom rapaz! toda a gente o diz; e todos o lastimam. Eu, cá por mim, penso que estas prisões não trazem nenhum bem á fabrica. Se soubesses o que por lá se diz!... Os chefes imaginam que não ha de ir longe o homem que elles morderam no calcanhar. Mas por cada um que elles atacam, ha cem que se revoltam. Deve-se ter cuidado quando se quizer tocar no povo, porque elle vae aturando por muito tempo, mas, n’um bello dia, estoira!

XV

Os operarios logo notaram a velha. Alguns dirigiram-se a ella amigavelmente:

—Encontraste trabalho, Pélagué?

E consolavam-na, affirmando-lhe que Pavel seria posto em liberdade dentro em breve, pois tinha este direito. Outros commoviam o seu coração dolorido com prudentes palavras de compaixão; outros ainda invectivavam abertamente o director e a policia e despertavam n’ella um ecco sincero. Havia tambem quem para ella olhasse com certa satisfação malevola; Isaías Gorbof, operario apontador, disse por entre dentes:

—Se eu governasse, mandava enforcar o teu filho, para lhe ensinar a não desnortear o povo.

Estas palavras gelaram-na mortalmente. Não respondeu, lançou apenas um olhar áquelle rosto coberto de sardas, e baixou a fronte, suspirando.