—Ora ahi tem, mãesinha, uma rapariga muito desagradavel para as auctoridades! Como um dos carcereiros a tivesse insultado, declarou terminantemente que se deixaria morrer de fome, se elle não lhe pedisse desculpa. E durante oito dias não comeu coisa alguma, estando em riscos de abalar d’esta para melhor. É bonito, não acha? E o que me diz á minha barriguinha?

Saccudiu o ventre postiço, feito de massos de folhetos e passou ao quarto, fechando a porta.

—O quê? Pois esteve oito dias sem comer? perguntou Pélagué, admirada.

—Se era indispensavel que elle me pedisse desculpa!... respondeu, com uma tremura d’hombros friorenta.

Esta tranquillidade e esta obstinação austeras levaram ao animo de Pélagué o que quer que fosse semelhante a uma censura. «Ah! é assim, é assim!...» pensou.

E perguntou ainda:

—E se tivesse morrido?

—Estaria morta, naturalmente. Afinal, o homem acabou por pedir desculpa. Ninguem deve perdoar os ultrajes.

—Sim... Mas nós, as mulheres, somos ultrajadas durante toda a nossa vida...

—Prompto! Já larguei a carga! informou Iégor, apparecendo. O samovar está prompto? Se me dá licença...