—Não sabia, não... Pavel nunca fala da sua pessoa.

E ainda mais se apiedou da rapariga.

—O sr. devia tel-a acompanhado! lembrou com certa hostilidade involuntaria.

—Impossivel! respondeu tranquillamente. Tenho uma caterva de coisas que fazer por cá, e para dar conta de tudo hei de andar o dia inteiro. É uma occupação muito desagradavel quando somos asthmaticos.

—Que bella rapariga! exclamava, pensando vagamente no que Iégor lhe dissera.

Vexava-a ter sabido aquella noticia por outrem e não pelo seu filho; mordeu os beiços fortemente e abaixou as palpebras.

—Sim! disse Iégor. Noto que ella lhe causa piedade. Faz mal! se começa a ter piedade dos revoltados não lhe chega o coração para todos. Francamente, ninguem tem boa vida... Ha tempos, um dos meus companheiros regressou do exilio; quando chegou a Nijni, a mulher e o filho esperavam-no em Smolensk, e quando elle chegou a Smolensk, já elles estavam presos em Moscou. Agora é a mulher que vae exilada para a Siberia. Eu tambem tive mulher, tambem, e era uma excellente creatura, mas cinco annos d’esta vida bastaram para a atirar para a cova.

Bebeu d’um trago o seu copo de chá e continuou a discorrer. Contou os annos e mezes que passara preso, e no exilio, as suas catastrophes, a fome na Siberia, os massacres nas prisões... A velha ouvia-o attentamente, admirando-se da simplicidade tranquilla com que elle descrevia aquelle viver cheio de perseguições e de torturas.

—Bem! Vamos agora ao nosso negocio...

A voz transformou-se-lhe, a phisionomia tornou-se grave. Perguntou como imaginava ella poder introduzir na fabrica os folhetos, e Pélagué ficou surpreendida ao perceber que elle conhecia a fundo todos os meios para chegar ao desejado fim.