Depois de combinarem tudo, voltaram a falar da sua aldeia; emquanto Iégor gracejava, a velha ia percorrendo em pensamento o passado, que lhe parecia semelhante a um pantano com monotonos monticulos, e com faias, pinheirinhos e bétulas brancas balouçando mansamente ao vento nas pequeninas collinas. As bétulas cresciam muito de vagar, e depois de terem vivido cinco ou seis annos n’aquelle sólo pútrido e movediço, caíam e decompunham-se... A velha considerava este quadro com indifinivel e misteriosa magoa. Na sua frente ergueu-se uma silhueta de rapariga de feições accentuadas e cheias de obstinação. Ia, sob os flocos de néve, fatigada e solitaria... E o seu filho estava encerrado n’uma pequena casa, cuja janella tinha grades de ferro... Talvez áquella hora elle não dormisse; pensava, por certo. Mas não estaria pensando em sua mãe, porque havia alguem que lhe era mais querido... Como uma nuvem de variegadas côres e informe, avançavam para ella os dolorosos pensamentos, invadindo-lhe a alma com violencia.
—Deve estar cançada, mãesinha! Vamo-nos deitar! disse Iégor, sorrindo.
Desejou-lhe uma boa noite, e passou á cosinha, caminhando d’esguelha, com precaução, com o coração cheio de ardente amargura.
Na manhã seguinte, ao tomar o chá, Iégor disse-lhe:
—E se a apanharem, e lhe perguntarem onde adquiriu os folhetos, o que responde?
—«Isso não é da sua conta!»... Aqui está o que eu respondo.
—Por esse ajuste é que elles não estão! O importante para elles é isso mesmo, e sobre o assumpto hão-de interrogal-a demoradamente.
—Não direi uma palavra!
—Mettem-na na cadeia!
—Que m’importa! Graças a Deus, terei ao menos servido para alguma coisa! A quem faço eu falta? A ninguem. E segundo dizem, já não torturam os presos...