—Hum!... Não a torturarão. Mas uma boa mulher como a sr.a deve ter cuidado em si.

—Não me parece que seja comsigo que possam aprender isso. Depois de ter dado alguns passos, em silencio, Iégor approximou-se d’ella.

—É custoso, patricia! sinto que ha-de custar-lhe muito!

—Todos estamos sujeitos!... Talvez seja mais facil para os que teem uma compreensão clara... Emfim, eu não compreendo bem, mas alguma coisa sei do que quer a nossa boa gente.

—E desde que o sabe, mãesinha, é util a todos, a todos!

Pelo meio-dia, Pélagué, tranquilla e importante, metteu um masso de folhetos no seio. Vendo a destreza com que ella os occultava, Iégor deu um estalido com a lingua e exclamou satisfeito:

Sehr gut! como dizem os allemães ao esvasiarem um barril de cerveja. A litteratura não a transformou: continua sendo uma mulher como se quer! Os deuses protegem a sua empreza!

Meia hora depois, com o mesmo sangue-frio e acurvada ao peso da comida que levava para os operarios, Pélagué chegava á porta da fabrica. Dois guardas, irritados pela troça dos operarios com quem trocavam doestos, apalpavam sem ceremonias todos os que entravam no pateo. Um agente de policia passeava não distante d’alli, bem como um homem de olhar vago, pernas curtas, e cara vermelhaça. A velha observou este, de soslaio, emquanto passava o fardo para o outro hombro; advinhava que elle era um espião.

Um rapagão de cabellos encaracolados, com o boné para a nunca, gritava aos guardas que o revistavam:

—Procurem na cabeça e nas algibeiras, seus diabos!