Era alta e levemente corcovada; o seu corpo pesado, abatido por incessante trabalho e por maus tratos, movia-se sem ruido, obliquamente, como se ella receasse topar n’alguma cousa. O largo rosto oval, sulcado de rugas e ligeiramente empapuçado, tinha a dar-lhe brilho uns olhos negros, de uma expressão triste e inquieta como o de quasi todas as mulheres do bairro. Na testa uma cicatriz profunda fazia-lhe subir um pouco o sobrolho direito; parecia tambem que a orelha direita estava mais acima do que a outra, o que dava ao rosto um ar receoso. Tinha no cabello espesso e negro madeixas grisalhas semelhantes a nodoas resultantes de violentas pancadas. Toda ella transpirava suavidade, uma resignação dolorosa.
E ao longo das faces corriam-lhe lentamente as lagrimas.
—Olha! não chores! supplicou Pavel em voz baixa. Dá-me de beber!
—Vou buscar agua gelada...
Quando voltou, elle dormia. Ficou immovel por um instante, retendo a respiração; a bilha tremia-lhe nas mãos, os pedaços de gelo tintilavam dentro. Depois de collocal-a na meza, Pélagué ajoelhou diante das imagens santas e orou silenciosamente. Os vidros das janellas tremiam sob as ondas sonoras da vida obscura e alcoolica do exterior. Nas trevas e na humidade d’aquella noite d’outomno, ouviam-se os rangidos de um harmonio; alguem cantava de guella aberta; passavam nas ruas palavras abjectas e obscenas; vozes de mulheres vibravam, assustadiças ou irritadas.
Na pequena habitação de Vlassof, a vida decorria uniforme, mas mais tranquilla e em paz do que outrora, distinguindo-se assim da existencia geral do bairro. A casa era situada na extremidade da rua direita, no cimo d’um pequeno alto, nos baixos do qual havia um pantano.
A cozinha occupava o terço da habitação; um delgado tabique, que não chegava ao tecto, separava-a de um pequeno quarto onde dormia a mãe. O resto formava uma casa quadrada, com duas janellas; a um canto, a cama de Pavel, no outro, dois bancos e uma meza. Algumas cadeiras, uma comoda onde guardavam a roupa, um pequenino espelho, uma mala para o fato, um relogio e duas imagens de santos, era tudo.
Pavel tentava viver como os outros. Fazia quanto era proprio a um rapaz; comprou um harmonio, uma camisa de peitilho engomado, uma gravata vistosa, galochas e capa de borracha, e uma bengala. Na apparencia assemelhava-se a todos os adolescentes da sua idade. Ia ás reuniões, aprendia a dançar a quadrilha e a polka; ao domingo entrava em casa embriagado. Nas manhãs seguintes, doia-lhe a cabeça, a febre consumia-o, o seu rosto estava palido e desfigurado.
Um dia, a mãe perguntou-lhe: