—E então, divertiste-te hontem á noute?

Respondeu com sombria irritação:

—Aborreci-me atrozmente! Os meus companheiros são umas maquinas!... Prefiro ir á pesca ou comprar uma espingarda.

Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo, voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade. Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa. Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi invadida por vaga inquietação.

Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas. Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel.

—Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué.

—Vou bem, vou! respondeu.

—Estás tão magro! suspirou ella.

Ficou silencioso.

Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora habituaes no seu falar.