André chegou d’ali a pouco, animado, alegre. Quando a velha lhe falou de Rybine, exclamou:
—Parte?! Pois que vá! que vá espalhar pelas aldeias a verdade, e accordar o povo. Era-lhe difficil ficar comnosco. Tem na cabeça umas idéas especiaes, que não lhe deixam adoptar as nossas.
—Falou dos ricos, dos nobres, dos illustrados. Parece haver no caso alguma coisa torta!... disse ella prudentemente. Oxalá não sejamos enganados!...
—Isso dá-lhe cuidado, mãesinha? Ah! o dinheiro! não é? Vamos vivendo por conta d’outrem. O Nicolao Ivanovitch ganha setenta e cinco rublos por mez, e entrega-me cincoenta. Os outros fazem o mesmo. Os estudantes, que passam privações, cotisam-se tambem, e conseguem mandar-nos pequenas quantias, accumuladas kopeck a kopeck. É isto! Ha homens para tudo: uns enganam-nos, outros não nos deixam avançar; mas ha os melhores, os que nos acompanham no caminho da victoria!
E esfregando as mãos:
—Mas o triunfo ainda vem longe, ainda! Emquanto não chega, vamos organisar um primeiro de maiosinho! Ha de ser divertido!
As suas palavras e a sua animação tranquillisaram Pélagué. Elle, passeando a passos largos continuava:
—Se soubesse que extraordinaria sensação eu tenho ás vezes!... Parece-me que por toda a parte por onde vou, os homens são companheiros, incendidos na mesma fé, que todos são bons. Todos se compreendem sem precisarem de falar, ninguem offende o proximo. Vive-se em bôa harmonia, cada alma canta a sua canção, e, como regatos, todas as canções se reunem em um unico rio, que vae avançando, majestoso e grave, para o mar onde brilham os clarões da vida livre. E digo com os meus botões que isto ha de realisar se, que isto não póde deixar de ser, se nós quizermos que seja! E então o meu coração transborda de alegria; tenho vontade de chorar, tal é a minha felicidade!
A velha nem se movia, para não o interromper. Escutara-o sempre mais attentamente do que aos seus companheiros porque elle falava com mais simplicidade, e as suas palavras iam mais fundo á alma. O Pavel tambem era para a frente que olhava, mas mantinha-se solitario e nunca dizia o que via. Parecia a Pélagué que André olhava sempre para o futuro com o coração: a lenda do triunfo de todas as creaturas surgia sempre nos seus discursos. E aos olhos de Pélagué aquella brilhante lenda illuminava lhe a compreensão da vida e do trabalho a que o filho e os seus companheiros se tinham entregado.
—É humilhante isto! exclamou elle de subito. Não se póde acreditar no homem. Precisamos até de temel-o e de odial-o. O homem desdobra se, a vida parte-o em dois. Como seria possivel amar somente? Como perdoar áquelle que se arroja sobre vós, como um animal selvagem? Impossivel! Não falo por mim. Supportaria todos os ultrages; mas não quero ter connivencia com os oppressores; não quero que se sirvam dos meus costados para aprenderem a bater nos outros.