Elle notou que a velha era mais frequente em pedir-lhe a significação de certas palavras; percebia que ella ia-se instruindo ás escondidas, e por isto deixou de insistir em ensinal-a.
—Vae-me faltando a vista, meu André; sinto-a cançada... disse-lhe, um dia. Gostava muito de usar uns oculos.
—Está dito! No domingo vamos ambos á cidade consultar um doutor que eu conheço, e compraremos depois os oculos.
XIX
Já por trez vezes ella sollicitara licença para ver o filho, recebendo sempre a negativa benevola do chefe dos guardas, um velho de cabellos brancos, faces escarlates e nariz comprido.
—D’aqui a uma semana, mulhersinha. Antes, não! Para a semana veremos. Hoje é impossivel.
—É muito delicado! contava ella a André. Sempre a sorrir!... Não me parece bem. Quando se é chefe, não se deve levar assim as coisas de brincadeira.
—Sim, sim... São amaveis, sorriem muito... Se lhes dizem: «Vê aquelle homem intelligente e honrado? É perigoso para nós: enforque-o!» Elles sorriem, enforcam-no, e depois continuam a sorrir.
—Aquelle que veio cá fazer a busca era mais simples, valia mais: via-se logo que era um canalha!
—Dir-se-ia que não são homens mas sim martellos, ferramentas, para nos talharem por forma a ficarmos ao gosto do governo. Elles proprios foram accomodados á mão que nos dirige...