—Ih!... E para quê? perguntou, tranquillo.
—Para que deixem de existir!
—Tens então o direito de transformar os vivos em cadaveres?
—Tenho!
—E onde foste buscal-o?
—Foram os homens que mo deram!
O russo-menor, alto, magro, parou no meio do quarto, bamboleando o corpo; com as mãos nas algibeiras, observava dos pés á cabeça o bexigoso. Este, sentado e envolto n’uma nuvem de fumo, tinha n’aquelle momento o rosto palido salpicado de manchas vermelhas.
—Foram os homens que mo deram! repetiu, de punho cerrado. Desde que me dão pontapés, tenho o direito de responder, atirando-me aos focinhos, aos olhos... Se não me tocarem, eu não toco em ninguem. Deixem-me viver como quero, que eu viverei quieto, sem incommodar os mais. Juro! Supponhamos que quero viver n’uma floresta, construir uma cabana n’uma ravina, na margem d’um regato... e viver ali, sósinho...
—Pois faz isso! respondeu, encolhendo os hombros.
—Agora? Não! É impossivel! Estou ligado estreitamente aos homens até á morte! Ligaram o meu coração com o odio, prenderam-me a elles com o mal. É um laço muito solido. Odeio-os, e vá por onde fôr não os deixarei viver tranquillos. Incommodam-me, e eu incommodal-os-ei. Respondo por mim, só por mim; não posso responder por mais ninguem. E se o meu pae é um ladrão...