—Ah! exclamou repreensivamente André, em voz baixa, approximando-se.

—Ainda acabo por arrancar a cabeça ao Isaías Gorbof, verás!

—E porquê?

—Porque anda a espiar-me. Foi por causa d’elle que o meu pae se perdeu, é com elle que o meu pae conta para entrar para a policia secreta!

—Olhem o grande mal! Mas quem te censura, a ti, pela vida do teu pae? Isso é para os tolos!

—Para os tolos e para os não tolos! Olha: tu és intelligente, o Pavel tambem. Dize lá: teem por mim consideração igual á que teem pelo Fédia Mazine ou pelo Samoílof, ou um pelo outro? Não mintas, que não te acreditaria. Atiram-me para o canto!

—Tens a tua alma doente, amigo! respondeu André, affectuosamente, sentando-se ao lado d’elle.

—A vossa tambem soffre. Mas imaginam que as suas ulceras são mais nobres do que as minhas. Procedemos uns para os outros como canalhas! é o que te digo! O que respondes a isto, an?

Fitou o olhar penetrante em André e esperou, com os dentes á mostra. O seu rosto palido estava impassivel; apenas lhe tremiam os labios grossos como se tivessem sido queimados e contraídos por algum liquido caustico.

—Nada te responderei! disse André acariciando o olhar hostil de Vessoftchikof com o sorriso luminoso e triste dos seus olhos azues. Sei demais que querer discutir com alguem, cujo coração está sangrando, é o mesmo que irrital-o. Sei, irmão.