—Não se pode discutir comigo; não sei discutir! resmungou, abaixando os olhos.
—Estou certo de que todos nós caminhámos como tu agora, com os pés descalços por cima de vidros partidos; que todos nós respirámos essas mesmas evaporações de horas sombrias...
—Não podes dizer coisa alguma que me socegue. Nada! A minha alma uiva como um lobo!
—Nem tenho tal intuito. O que sei é que isso ha de passar. Talvez não muito depressa; mas ha-de passar.
E pôz-se a rir, batendo no hombro do rapaz:
—É uma doença de creanças, no genero da escarlatina, irmão. Todos nós fomos atacados do mesmo mal, com maior ou menor violencia, conforme eramos fortes ou fracos. Ataca a gente da nossa condição, quando nos encontramos sósinhos, quando não compreendemos ainda a vida, quando não vemos o logar que nos foi destinado. Parece-nos que somos o unico homem n’este mundo e que ninguem se importa comnosco, a não ser para nos devorar. Mais tarde, quando vires que ha tambem boas almas n’outros peitos alem do teu, consolar-te-ás... e envergonhar-te-ás de ter acreditado que só tu davas a nota afinada, e de ter querido trepar ao campanario sendo o teu sino tão pequeno, que ninguem o ouve na bimbalhada dos dias de festa. Perceberás então que és uma voz apenas perceptivel, mas necessaria, no côro poderoso e magnifico da verdade. Compreendes o que eu quero dizer?
—Compreendo... compreendo... Mas não te acredito!
—Tambem eu não queria acreditar...
O bexigoso pôz-se então a rir com a bôca aberta até ás orelhas.
—Que é isso?