—E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma borboleta.
—«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro por toda a vida.
Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si proprios.
Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira, nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios.
Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias; e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção. Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham, ficando afinal com caras de tolos.
Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder, assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando:
—Toma! toma!...
Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia, sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas. Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na conversa, e era o ultimo a saír.
A sós com André, falava então com o seu modo sórna.
—Quem é o mais culpado de todos?