—Tudo está mudado. E assim é que deve ser! acudiu André. E sabe porquê? Porque se desenvolve na vida um coração novo, mãesinha. Os corações estão todos elles despedaçados pela diversidade dos interesses, roídos pela cega avareza, mordidos pela inveja, cobertos de chagas e de feridas purulentas... de mentira, de covardia. Os homens são uns doentes, que teem medo de viver... perdidos como em um nevoeiro... conhecendo apenas a sua propria dor. Mas eis que apparece um homem que illumina a vida com o fogo da razão e que grita: «Eh! pobres insectos perdidos! Chegou o tempo de compreender que tendes todos os mesmos interesses e o mesmo direito á vida e ao desenvolvimento!» O homem que clama está isolado, sente-se triste e tem frio sósinho. E ao seu chamamento, todos os corações se reunem, formando um coração immenso, forte, sensivel como um sino de prata. E este sino diz assim: «Uni-vos, homens de todos os paízes, formae uma unica familia! A mãe da vida é a affeição e não o odio!» Irmãos, eu oiço este sino!

—E eu tambem! disse Pavel.

—Deitado, de pé, vá para onde fôr, oiço-o e sinto-me feliz. Eu sei: a terra está farta de supportar a injustiça e a dôr; éccôa como se quizesse responder, saúdando o novo sol que desponta no peito do homem!

Pavel ergueu um braço, ia falar; mas a mãe deteve-o, e disse baixinho:

—Não o interrompa.

—Sabem? ha ainda muitas dores reservadas aos homens; ainda muito sangue lhes será arrancado por mãos ávidas. Mas tudo isto, toda a minha dor e todo o meu sangue, nada são perante o que já possuo no meu cerebro, na minha medula, nos meus ossos! Já sou rico como uma estrella é rica em scintillações. Supportarei tudo, porque tenho em mim uma alegria, que ninguem nem coisa alguma matará, e que é a minha força!

E até á meia noite, a conversa proseguiu, harmonica e sincera, acerca da vida, dos homens, do futuro.

XXIV

De manhã muito cedo, apenas André e Pavel tinham sido, Maria Korsounova bateu á janella com estrondo.

—O Isaías foi assassinado! Vamos ver!