Não distante da fabrica, sobre o entulho d’uma casa recentemente destruida por um incendio, grande ajuntamento de povo murmurava como uma nuvem de bezouros, e movia-se levantando em poeira a cinza com os seus passos. Já lá estavam muitas mulheres, ainda mais creanças, lojistas, os moços da taverna proxima, agentes de policia, o guarda Pétline, um guarda velho, de barbas brancas como prata, e com o peito coberto de medalhas.
Isaías estava meio deitado no chão; tinha as costas apoiadas a uma trave enegrecida pelo fogo, a cabeça descaída para o ombro direito. Conservava a mão direita na algibeira das calças; os dedos da esquerda desappareciam contraídos sob a terra fôfa.
Pélagué olhou para o rosto do morto. Um dos olhos tinha-o elle fixado no boné posto entre as pernas estendidas, a boca entreaberta n’uma como expressão d’assombro; a barbicha ruiva pendia. O corpo magro, com a cabeça ponteaguda, e o rosto ossudo coberto de manchas avermelhadas, parecia diminuido, comprimido pela morte.
Ella então benzeu-se suspirando. Em vida, aquelle homem fôra-lhe antipatico; morto, fazia-lhe dó.
—Não tem sangue! disse alguem. Talvez o prostrassem aos murros.
—Talvez ainda esteja vivo.
—Vão-se d’aqui! berrou o guarda.
—O medico já veio, e disse que elle estava morto!
—Fecharam a boca a um denunciador... Foi bem feito!
O guarda afastou as mulheres que o cercavam e perguntou ameaçadoramente: