—Que se ha de fazer? É-se obrigado a odiar o homem, para que venha mais cedo o tempo de admiral-o sem reservas. Temos que destruir aquelle que obsta ao curso da existencia, que vende os outros para adquirir honrarias ou o descanso. Se encontramos no caminho dos justos um Judas que nos espera para nos traír, eu proprio seria um traidor, se não o anniquilasse. É crime? É contra o direito? E os outros, os nossos senhores, com que direito se servem de soldados e carrascos, de casas publicas e de prisões, do degredo e de tanta coisa infame para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? Os nossos senhores assassinam-nos ás centenas, aos milhares; isto dá-me o direito de levantar a mão e de deixal-a caír na cabeça d’um inimigo, d’aquelle que mais se approximou de mim e que mais me prejudica na vida. Sei que o sangue dos meus inimigos não cria, que é esteril... Desapparece sem deixar vestigios, porque está podre; ao passo que quando o nosso rega a terra como uma chuva compacta, a verdade desenvolve-se exhuberante! Tambem o sei! Mas se vir que é indispensavel matar, matarei e revindicarei a responsabilidade do meu crime. Não falo senão de mim. O meu peccado morrerá comigo, não maculará o futuro com uma unica nódoa, não manchará ninguem, ninguem senão eu!

Cheia de tristeza e de inquietação, Pélagué sentia que elle tinha como que uma mola partida no seu espirito, e que soffria. Não a inquietava já o caso do assassinio: não tendo sido Vessoftchikof, nenhum outro companheiro de Pavel o seria, por certo.

André proseguia:

—Tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que cada qual brilhará como uma estrella, em que escutará a voz do seu semelhante, como se fosse uma musica. Haverá na terra homens ricos, grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado ao homem; a sua imagem será exhaltada porque para os homens livres todas as alturas são accessiveis. Viver-se-á então na liberdade e na egualdade, pela belleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por esta vida assim, estou prompto a tudo. Arrancaria o coração a mim proprio, e pizal-o-ia, com os meus pés!

O seu rosto tremia; as suas feições tinham uma excitação luminosa; uma a uma, as lagrimas deslisavam-lhe pelas faces.

Pavel levantou a cabeça e contemplou-o. Pélagué sentia-se inquieta, com um vago e terrivel presentimento.

—O que tens, André? perguntou Pavel, a meia-voz.

Elle esticou o corpo, e fitando a velha:

—Eu vi... eu sei...

Pélagué levantou-se, correu a elle, pegou-lhe nas mãos.